Li a reportagem sobre Lihi Darnell (Gluzman), a testemunha-chave no caso do assassinato de Asaf Steierman, que está agora em formação na área da psicologia clínica. Para além do debate jurídico e público, este caso levanta a meus olhos uma questão profissional muito mais ampla:
Até que ponto as organizações verificam a fundo as pessoas em cujas mãos depositam poder, influência e confiança?
Neste caso trata-se de uma profissão terapêutica. Em outros contextos trata-se de um diretor financeiro, um oficial de segurança, um gestor de compras, um profissional de IT com permissões amplas ou um colaborador exposto a informação sensível.
Uma das lições centrais do mundo das insider threats é que nem todo risco se mede por antecedentes criminais ou por uma condenação. Por vezes são justamente os padrões de comportamento, a tomada de decisões sob pressão, o discernimento moral e as reações a eventos extremos que deveriam acender os sinais de alerta.
Muitas organizações concentram-se na pergunta "Este colaborador tem antecedentes criminais?", mas muitas vezes a pergunta mais importante é: "Existe informação relevante sobre a sua conduta no passado que nos faria pensar duas vezes antes de lhe atribuir uma função sensível?"
Neste caso específico não se trata de uma questão jurídica, mas de uma questão de gestão de risco.
Quando se prevê que uma pessoa ocupe uma posição de confiança, influencie outras pessoas ou tenha acesso a recursos sensíveis, vale a pena examinar várias camadas: um histórico de tomada de decisões em situações extremas; o envolvimento em acontecimentos de relevância pública ou moral; as lacunas entre a imagem atual e eventos passados relevantes; uma avaliação de risco atualizada e não pontual; e mecanismos de supervisão e controlo ao longo do tempo.
É também importante lembrar que as insider threats não surgem apenas de intenção maliciosa. Por vezes decorrem de um discernimento deficiente, da ocultação de informação, da falta de responsabilidade ou de conflitos de valores que não foram identificados a tempo.
No fim de contas, cada organização tem de decidir onde passa a linha entre a reabilitação pessoal e a responsabilidade profissional. É uma decisão complexa, mas tem de ser tomada a partir de uma gestão de risco fundamentada e não a partir do pressuposto de que, se não há impedimento legal, também não há risco.