Encontro bastantes gestores que olham para a 'insider threat' apenas através do prisma do roubo de informação, da espionagem industrial ou da fraude financeira. Mas existe outro tipo de insider threat, muito mais silencioso, que normalmente não aparece nos relatórios de segurança.
O agressor.
Aquele gestor que diminui os colaboradores, os humilha diante dos outros, instila medo, os desgasta psicologicamente, gera ansiedade e desmonta a autoconfiança ao longo do tempo.
Os estudos já mostraram que o assédio no local de trabalho não permanece apenas no plano emocional. Ele prejudica a capacidade cognitiva, a tomada de decisões, a memória, a concentração e o desempenho profissional. Um colaborador sob terror psicológico contínuo começa a cometer mais erros, a isolar-se, a perder motivação e, por vezes, até a desenvolver raiva em relação à própria organização.
E é exatamente aqui que começa a ligação ao mundo das ameaças internas.
Porque às vezes o próprio 'predador' é a insider threat. E às vezes ele gera uma nova insider threat: o colaborador que ele prejudicou.
Um colaborador que vivencia humilhação contínua pode tornar-se uma pessoa amargurada, indiferente, vingativa ou sem compromisso. Em certos casos isso manifesta-se como demissão silenciosa, fuga de informação, prejuízo aos processos ou simplesmente um colapso funcional que prejudica a organização por dentro.
É exatamente por isso que penso que não basta verificar apenas a integridade, o passado ou a fiabilidade dos candidatos. É preciso também saber identificar padrões predatórios.
Sim, há formas de os identificar. É possível detetar sinais precoces já na fase de recrutamento: padrões extremos de controlo, manipulação, falta de empatia, relações humanas destrutivas ao longo do tempo, padrões recorrentes de desgaste nas equipas que geriram e um ambiente de trabalho que produz medo em vez de confiança.
E se essa pessoa já estiver dentro da organização, é preciso monitorizar tais comportamentos exatamente como se monitorizam outras anomalias de segurança. Porque o seu dano nem sempre aparece de imediato, mas quando explode, o custo organizacional é enorme.
Penso que num futuro próximo as organizações compreenderão que o assédio no local de trabalho não é apenas uma questão de HR ou de bem-estar dos colaboradores. É uma questão de segurança organizacional.